2026-09-15 · 5 min de leitura
Queda da libido: quando e por que acontece, em homens e em mulheres
Falar sobre queda da libido ainda causa desconforto em muitos consultórios — mas é uma queixa extremamente comum, presente em uma parcela significativa da população adulta, em todas as faixas etárias. Entender quando ela é mais frequente e por que acontece é o primeiro passo para tratar o assunto com a seriedade médica que merece, em vez de silêncio ou culpa.
O que os dados mostram: quando o desejo sexual cai mais
O maior levantamento populacional já feito sobre o tema, o Natsal-3 (terceira edição do National Survey of Sexual Attitudes and Lifestyles, na Grã-Bretanha, com mais de 15 mil participantes), mostrou um padrão consistente: a queixa de baixo interesse sexual é cerca de duas vezes mais comum em mulheres do que em homens, em praticamente todas as idades — e, para ambos os sexos, tende a aumentar da juventude até a meia-idade, com um pico entre 45 e 64 anos.31
Queda do desejo sexual por idade — homens x mulheres
% de pessoas que relataram baixo interesse sexual por pelo menos 3 meses no último ano
Fonte: Mitchell KR et al., 2013 — Natsal-3 (Grã-Bretanha, mais de 15 mil participantes), publicado na revista The Lancet.
Por que a libido cai nos homens
- Queda de testosterona. É a causa hormonal mais estudada — sintomas de desejo sexual reduzido, combinados a níveis de testosterona consistentemente baixos, caracterizam o hipogonadismo, que se torna mais frequente a partir da meia-idade.15
- Doenças crônicas e fatores metabólicos. Diabetes, hipertensão, obesidade e doença cardiovascular têm impacto direto sobre a função sexual, tanto por mecanismos vasculares quanto hormonais.
- Medicamentos. Antidepressivos (especialmente os ISRS) estão entre as causas medicamentosas mais comuns de queda de libido, com efeitos sexuais relatados em uma proporção expressiva dos usuários — além da própria depressão, que já reduz o desejo sexual mesmo sem tratamento.33
- Fatores psicológicos e de relacionamento. Estresse, ansiedade, sono ruim e conflitos no relacionamento também têm papel relevante — muitas vezes combinado a causas físicas, não isolado delas.
Por que a libido cai nas mulheres
- Menopausa e queda hormonal. A transição menopáusica está associada a aumento expressivo na prevalência de baixo desejo sexual, ligado principalmente à queda de estradiol — o estudo populacional PRESIDE, um dos maiores já feitos sobre o tema, documentou esse padrão em dezenas de milhares de mulheres americanas.32 A testosterona também tem papel na resposta sexual feminina, e um posicionamento internacional de consenso reconhece seu uso terapêutico em casos bem selecionados de baixo desejo sexual após a menopausa.34
- Medicamentos. Da mesma forma que em homens, antidepressivos ISRS são uma causa medicamentosa frequente de queda de libido em mulheres.33
- Fatores psicológicos, relacionais e de sobrecarga. Estresse crônico, sobrecarga de rotina, imagem corporal, qualidade do relacionamento e saúde mental têm peso especialmente relevante na queixa feminina — por isso a avaliação nunca deve se limitar a hormônios.
A relação com as canetas emagrecedoras
Esse é um tema ainda em investigação, mas já com dados relevantes. Um estudo de banco de dados com milhares de homens não diabéticos com obesidade mostrou risco maior de disfunção erétil recém-diagnosticada e de hipogonadismo entre os que usaram semaglutida, em comparação a quem não usou.35 Isso não significa que o medicamento "causa" queda de libido em todos os pacientes — os mecanismos envolvidos (efeitos sobre vias de recompensa, mudanças hormonais associadas à perda de peso, fatores emocionais) ainda estão sendo estudados —, mas reforça por que qualquer alteração de desejo sexual durante o tratamento merece ser relatada e investigada, e não apenas atribuída ao "estresse do dia a dia".
Quando procurar avaliação médica
Queda de libido pontual, ligada a uma fase de estresse ou cansaço, é parte normal da vida. Já queda persistente — com duração de vários meses, causando incômodo pessoal ou no relacionamento — merece investigação: avaliação hormonal, revisão de medicamentos em uso, rastreio de doenças crônicas e, quando indicado, avaliação psicológica. Não é um assunto para ser resolvido sozinho com base em suposições — é uma queixa médica legítima, como qualquer outra.
Referências
- Mitchell KR, Mercer CH, Ploubidis GB, et al. Sexual function in Britain: findings from the third National Survey of Sexual Attitudes and Lifestyles (Natsal-3). Lancet. 2013;382(9907):1817-1829. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-1744. academic.oup.com
- Kennedy SH, Rizvi S. Sexual dysfunction, depression, and the impact of antidepressants. J Clin Psychopharmacol. 2009;29(2):157-164. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- West SL, D'Aloisio AA, Agans RP, Kalsbeek WD, Borisov NN, Thorp JM. Prevalence of Low Sexual Desire and Hypoactive Sexual Desire Disorder in a Nationally Representative Sample of US Women. Arch Intern Med. 2008;168(13):1441-1449. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Davis SR, Baber R, Panay N, et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(10):4660-4666. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Able C, Liao B, Saffati G, et al. Prescribing semaglutide for weight loss in non-diabetic, obese patients is associated with an increased risk of erectile dysfunction: a TriNetX database study. Int J Impot Res. 2025;37(4):315-319. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
Este texto é educativo, baseado em literatura médica internacional, e não substitui avaliação médica individual. Queda de libido persistente deve ser investigada com um médico, e não tratada apenas com suposições ou automedicação.